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GEOPARTITURA: CONCERTO COLETIVO COM MÚSICA, IMAGEM, TECNOLOGIA E INTERATIVIDADE

http://geopartitura.wordpress.com/

projeto inscrito por Suzete Venturelli

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O projeto Geopartitura (geopartitura.wordpress.com) desenvolvido no MídiaLab Laboratório de pesquisa em arte computacional da Universidade de Brasília, aponta para questões emergentes envolvendo a música, a geografia, e dispositivos móveis como celulares para permitir a criação coletiva georeferenciada de um concerto multimídia em tempo real. O sistema formado por software e dispositivos móveis permite a apresentação de um concerto multimídia cuja composição é realizada ao vivo em tempo real, por pessoas conectadas ao sistema pelos seus celulares.

O projeto tem como referência as ideias das marcações sonoras, oriundas da música eletracústica e da música computacional que historicamente vem rompendo as fronteiras da música tradicional para buscar a interatividade pela participação do público. Por exemplo, “Sua modalidade de construção, não pode convenientemente ser taxada de fechada” diz o músico eletroacústico Rodolfo Caesar, assim sendo livre para se expandir cada vez mais em suas articulações e intervenções. Recorrendo à liberdade de criaçã o sistema Geopartitura apresenta uma nova forma de interação a partir de aparelhos celulares como performance, assim como, fizeram os grandes nomes da música eletroacústica como Pierre Schaeffer, Pierre Henry até os tempos de Jorge Antunes (percursor da música eletroacústica no Brasil), propondo ainda uma extensão do que já foi realizado no contexto da intervenção urbana.

O sistema geopartitura utiliza mídia locativa que, para André Lemos (2007), é definida como um conjunto de tecnologias e processos info-comunicacionais cujo conteúdo informacional vincula-se a um lugar específico. Locativo é uma categoria gramatical que exprime lugar, como “em”, “ao lado de”, indicando a localização final ou o momento de uma ação. As mídias locativas são dispositivos informacionais digitais cujo conteúdo da informação está diretamente ligado a uma localidade. Trata-se de processos de emissão e recepção de informação a partir de um determinado local. A mídia móvel é a mídia sempre transportada, sempre ligada e sempre presente no ponto de impulso criativo.

Geopartitura tem como objetivo proporcionar a execução de um concerto em tempo real coletivo com música, imagem interagindo simultaneamente com pessoas portadoras de celulares que forem detectadas pelo sistema, através de bluetooth que é uma especificação industrial para áreas de redes pessoais sem fio (Wireless personal area networks – PANs). O Bluetooth provê uma maneira de conectar e trocar informações entre dispositivos como telefones celulares, notebooks, computadores, impressoras, câmeras digitais e consoles de videogames digitais através de uma frequência de rádio de curto alcance globalmente não licenciada e segura. As especificações do Bluetooth foram desenvolvidas e licenciadas pelo bluetooth special interest group. Outro aspecto importante do sistema é que os celulares devem conter (GPS), em inglês, Global Positioning System, ou, em português, Sistema Global de Posicionamento é o principal sistema de localização e navegação utilizado atualmente no mundo, ele está baseado em um sistema de 24 satélites americanos, que conseguem observar todos os pontos do planeta. O concerto utiliza ainda o progama (software) geopartitura desenvolvido pelo MídiaLab.

Por meio do sistema o interagente visualiza em forma de projeção no espaço urbano, uma cartografia que surge a partir das conexões de todos os indivíduos detectados pelo sistema em tempo real. Estas cordas produzem sons quando tocadas. Poeticamente, geopartitura está relacionado com a existência de um ritmo no universo do conhecimento que conduz a música e a imagem em suas diferentes formas de manifestação.

A palavra geopartitura tem origem na junção das palavras geografia e partitura. A Geografia é a ciência que estuda o espaço, ou seja, busca o significado dos lugares, sendo assim contribui significativamente com a sociedade, na reorganização de seus espaços e de suas formas de interação com o ambiente. Partitura significa uma representação escrita de música padronizada universalmente.

A proposta também se relaciona com a ideia de intervenção urbana, pois somente pode ocorrer em espaço aberto e público, em função da necessidade de detecção dos sinais emitidos pelos telefones celulares. O concerto é projetado na superfície externa da arquitetura em tempo real. Esta é a mesma interface que pode ser vista no celular. O som da geopartitura surge como imagem sonora em movimento e é ao mesmo tempo tocado em tempo real nos celulares.

Paisagens

O sistema geopartitura considera a filosofia da música eletroacústica, no que concerne a ideia da paisagem sonora, contribuindo com inovação tecnologia, pois envolve na paisagem a ampliação do conceito pela inclusão de outros sentidos como a visão, na construção coletiva e interativa do concerto. O concerto aplica tecnologias cibernéticas como instrumento de diálogo com as pessoas que estão num espaço urbano por meio de seus celulares adensadas, de maneira crítica, pois utiliza o dispositivo móvel para expressão estética.

As paisagens sonoras geradas como concerto são a base para a composição de uma cartografia subjetiva que mapeia por meio de sons, arte e tecnologia o nomadismo humano físico, cultural, econômico e social. São detectados os pontos-chave da cartografia sonora de cada indivíduo ou transeunte, ou seja, forças de interferência na malha sonora projetada no contexto urbano, resultado de uma deriva pela cidade, deixando o acaso trabalhar.

Contexto poético

O sistema geopartitura está inserido no campo da arte computacional. Segundo Suzete Venturelli (2004) a arte no contexto das novas tecnologias data do início do século 20 a partir do advento da fotografia e do vídeo. Já a arte computacional envolve procedimentos lógico-matemáticos e atualmente relaciona especialmente arte e ciência da computação, cuja principal característica é a interatividade. A arte computacional está vinculada com o desenvolvimento das linguagens de programação e dos computadores, sistemas imprescindíveis para os artistas que produzem na área. O desenvolvimento da arte interativa deu-se neste contexto.

Para Júlio Plaza (1998), a interatividade é o intermediário entre homem e máquina que permite a sinergia, ou seja, a ação coordenada desses elementos. Como afirma Plaza e Tavares (1998), através do modo interativo, o modelo é aberto ao mundo exterior e deixa de funcionar em circuito fechado. “A interatividade como relação recíproca entre usuários e interfaces computacionais inteligentes, suscitada pelo artista, permite uma comunicação criadora fundada nos princípios de sinergia, colaboração construtiva, crítica e inovadora” (PLAZA, 1998, p.35). Portanto, sem o interagente a obra não acontece.

Os interagentes utilizam o sistema geopartitura para relacionar imagem e som, no ritmo no universo do conhecimento que conduz a dança de suas diferentes formas de manifestação. Alguns autores, como Fritjof Capra, em “O Tao da Física” (1991), e Gary Zukav, em “A Dança dos Mestres Wu Li”(1979), já se dedicaram a observar a existência desse ritmo no universo do conhecimento. Gary Zukav explora essa sintonia entre os novos caminhos da física e o misticismo oriental. O caminho sugerido é duplo: a ciência busca teorias tão amplas sobre o universo que acaba por tangenciar a sabedoria do oriente, onde ciência, religião, arte e filosofia não são entidades que se pode distinguir com clareza. A ciência também toma esse rumo no momento em que a modernidade começa a permitir uma comunicação maior entre os “cantos” da Terra, sugerindo-se a hipótese de que o oriente pode ter, de alguma maneira, nos colocado novos problemas sobre o universo.

Objetivo geral

O concerto geopartitura tem o objetivo de proporcionar às pessoas que possuem celulares à idéia de paisagem sonora-visual, ou seja, um conjunto de sons que fazem parte de um determinado ambiente, por meio da relação entre música e imagem, criada coletivamente em tempo real. A paisagem sonora-visual visa possibilitar que os interagentes possam traçar cordas entre ele e os outros indivíduos conectados em tempo real e produzir sons ao tocar estas cordas. Além disso, o projeto prevê a realização de ciberintervenções urbanas, projetando a interface geopartitura sobre a superfície da arquitetura e disponibilizando o som do sistema no espaço urbano, em tempo real.

Objetivos específicos

● Proporcionar a integração entre música e imagem através do sistema de modulação e de flexibilidade da interface;
● Abordar a relação entre as pessoas do globo através do sistema geopartitura;
● Possibilitar uma proposta híbrida de música e imagem com a utilização de tecnologia interativa;
● Possibilitar que o público interaja com o sistema geopartitura em tempo real;
● Propor uma experiência interativa através da simulação de instrumento de corda que liga pontos georreferenciados;
● Propor uma experiência híbrida com projeção e som no espaço urbano;
● Proporcionar concerto de caráter lúdico como valor heurístico.

Aspectos técnicos

O projeto Geopartitura aponta para questões emergentes envolvendo a música, a geografia, e dispositivos móveis como celulares para permitir a criação coletiva georeferenciada de um sistema multimídia em tempo real. O geoposicionamento de cada celular permitirá ao sistema conectar cada aparelho aos demais, dentro de um raio de “descoberta”, criando para cada conexão estabelecida uma corda virtual que vibra e soa de acordo com a distância entre os pontos.
Para isto é necessário que os celulares sejam capazes de estabelecer uma conexão com o servidor (que contém a posição de outros aparelhos), registrar nele a sua posição e consultar a posição de outros aparelhos dentro de um raio especificado na consulta. Ao receber a requisição de registro, o servidor deverá armazenar no banco de dados a informação necessária a fim de identificar cada aparelho assim como a sua posição, retornando um identificador único (ID) para que o programa seja inicializado.
O sistema que roda distribuído foi desenvolvido para a plataforma Android (www.android.com) e é o responsável pela síntese sonora assim como a renderização das imagens em tempo real. Assim que inicializado, ou durante a inicialização, o sistema registra-se automaticamente no servidor para requisitar as posições dos outros aparelhos para que seja realizada a renderização das imagens.
Uma vez obtida a posição dos outros aparelhos, o sistema exibe graficamente as conexões entre os pontos através de cordas virtuais que podem ser tocadas pelo usuário compositor. Cada corda emite um som proporcional à distância entre os dois pontos, sendo reproduzida para a maior distância entre os pontos 20.000Hz e para a menor 20Hz.

Equipe MídiaLab

Claudia Loch mestre em Artes Visuais pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), na linha de pesquisa em arte e tecnologia. É integrante do Laboratório de Pesquisa (LABart) da Universidade Federal de Santa Maria – RS (UFSM), e do grupo de pesquisa Arte e Tecnologia/CNPq. É Bacharel em Artes Visuais pela UFSM (2007). Integrante do MídiaLab da Universidade de Brasília (UnB). Aluna especial do mestrado no Programa de Pós-graduação em Artes (PPGART/UnB). Artista premiada no Salão de Arte Contemporânea do Mato Grosso do Sul, com a participação de sete obras incluídas no acervo do Museu de Arte Contemporânea (MARCO).

Francisco de Paula Barretto é graduado em Ciências da Computação, desenvolve trabalhos ligados a Arte & Tecnologia desde 2008. Seus estudos estão relacionados, sobretudo, a Computação Musical, Composição Algorítmica e Inteligência Artificial. Atualmente desenvolve o Mestrado em Arte & Tecnologia no Programa de Pós Graduação em Arte na Universidade de Brasília (PPG-Arte UnB) trabalhando o tema do artista programador e as aplicações de IA no processo composicional. Participa também como analista e desenvolvedor do projeto “Visão Computacional para CyberTV” (consorciado do projeto WIKINARUA) e bolsista de apoio técnico do CNPq. Hors-acadêmico é geek, músico, DJ, entusiasta de novas tecnologias e fotógrafo nas horas mais inusitadas.

Juliana Hilário de Sousa, concluiu o curso de graduação em Licenciatura em Computação em julho de 2010 pela Faculdade Fortium – DF, tem experiência na area de docência, montagem, manutenção e redes de computadores, atualmente faz parte do programa de Estagio Tecnico da UNB voltado para recém formados.

Leonardo Guilherme cursa Licenciatura em Computação na Universidade de Brasília. Tem experiência com Desenvolvimento de Software em C/C++, Desenvolvimento de Jogos Eletrônicos, Sistemas POSIX; Também possui familiaridade com desenvolvimento para web.

Ronaldo Ribeiro da Silva trabalha com Arte e Tecnologia desde 2005. Atualmente faz Artes Plásticas na UnB, participou da exposição de arte “Humano-pós-humano” no CCBB organizado pelo Medialab em 2005. Desde 2006 trabalha no Medialab do Instituto de Artes da UnB, no qual já participou de vários projetos de Arte e Tecnologia e tem também um grande interesse por sistemas de inteligência artificial, especialmente aqueles de estilo mais simbólico e intuitivo. Gosta também de fazer ilustrações e atualmente está se aperfeiçoando em animação e modelagem 3D para jogos, além de iniciar estudos em Java e pretende trabalhar com jogos eletrônicos e sistemas de interação.

Suzete Venturelli é doutora em Artes e Ciências da Arte pela Universidade Sorbonne Paris I, em 1988 e o um dos mestrados em Histoire de lArt et Archeologie na Universite Montpellier III -Paul Valery, França, em 1981, com a dissertação Candido Portinari: 1903-1962. Desde 1986 é professora e pesquisadora da Universidade de Brasília. Participa de congressos e exposições com ênfase na relação da Arte com a Ciência da Computação e Tecnologia de Comunicação. Publicou os livros Arte: espaço_tempo_imagem, pela editora da Universidade de Brasília, em 2004 e Imagem Interativa, em 2008, em conjunto com Mario Maciel. Sua produção científica, tecnológica e artística envolve a Arte Computacional, Arte e Tecnologia, Realidade Virtual, Mundos Virtuais, Animação, Arte digital, Ambientes Virtuais e Imagem Interativa.

Victor Valentim é estudante de graduação em Música da Universidade de Brasília – (UnB). Bolsista do projeto Wikinarua, desenvolve pesquisa de iniciação científica em sistemas interativos musicais pelo departamento de artes visuais, no laboratório de pesquisa em arte e realidade virtual, com a professora Suzete Venturelli. Desde 2007, é desenvolvedor e ativista do software livre, para produção de música interativa com tecnologias acessiveis à baixo custo. Atualmente, desenvolve uma trilha sonora para o jogo tecnológico “NeoTamoio”, para CyberTV plataforma openGINGA e celulares, paralelamente desenvolve trabalhos de música contemporânea e eletroacústica.

Apoio: Camille Venturelli graduanda em publicidade pelo IESB, Brasília.

BIBLIOGRAFIA

Impressa

CAPRA, Fritjof. O Tao da Física. Um Paralelo Entre a Física Moderna e o Misticismo Oriental. São Paulo: Cultrix, 1991.
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Digital

VENTURELLI, Suzete. Cartografia colaborativa [online] p.0-0. Disponível em: Acesso em: 14 dez. 2009.

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