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Uma conversa político-afetiva sobre a Transparência Hacker

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por Rodrigo Savazoni

Compartilhar práticas fodas com gente muito foda é o aspecto mais bacana de fazer política. Este texto é sobre uma dessas pessoas que eu tenho enorme prazer de sempre chamar para o que posso: a Dani Silva, uma das articuladoras do Transparência Hacker, comunidade que, entre outras coisas, trabalha pela transparência dos dados públicos (saiba mais sobre o que são dados abertos neste outro post do blog). Tempos atrás, mandei a ela umas questões, por escrito, na expectativa de receber retorno e com base nisso iniciarmos uma conversa. A partir dessas respostas, escrevi uma reportagem para a Revista Fórum. Guardei a entrevista, para publicá-la em algum lugar que merecesse a excelente reflexão sobre a política dos nossos tempos que a Dani faz. Eis que, o espaço ideal, afinal, é o blog do Festival CulturaDigital.Br, do qual a Dani é uma das curadoras, e no qual a comunidade que ela articula irá desenvolver uma série de atividades: encontro internacional da rede, rolê do Ônibus Hacker, entre outras brincadeiras. Vale ler o que a Dani tem para dizer. Como você definiria politicamente a rede Transparência Hacker? A pergunta aqui é bem aberta mesmo. Quais as suas referências políticas? Como é que se vêm em relação aos demais movimentos políticos contemporâneos? Dani Silva – A Transparência Hacker é uma comunidade de hackers e ativistas das novas formas de fazer política na rede. Isso passa pela questão da informação pública, dos dados abertos, das tecnologias livres, mas também corresponde a uma causa maior – que tem a ver com reverter a ordem como tratamos de assuntos coletivos, com engajar grupos que antes não participavam da ação e do discurso público (por falta de espaço no debate ou por falta de interesse em formatos muito antigos), com fazer mudança usando os recursos que temos, simplesmente porque é possível. Eu gosto de pensar que somos ativistas do direito de fazer. É bizarro perceber a quantidade de impossibilidades a que grupos e indivíduos são submetidos quando querem provocar mudanças. Você fala em mudar o mundo, alguém responde que “isso não dá dinheiro”, que “a coisa já funciona assim há tantos anos”, que “os poderosos vão sempre estar no caminho”… ou até que “isso não é pra você”, que “trabalhar é sempre chato mesmo” ou então que “afinal, quem você pensa que é?”… Muitas prisões pras ideias e vontades… Por isso os ativistas do direito de fazer – ou do direito de agir publica e coletivamente em prol do que acreditamos ser importante – são necessários. O fato é que é muito raro mesmo aparecer alguém com a placa do “Não dá!” na Transparência Hacker. Você chega com uma ideia maluca pra transformar o Brasil, e nas respostas pode até sair um “esse caminho é bem difícil”, mas junto com ele geralmente vêm 15 outras ideias ainda mais malucas que colaboram pra colocar a sua mudança em prática. Os resultados pragmáticos disso já são muitos, mas a transformação política que isso representa é ainda mais importante. Fazer parte desse grupo e compartilhar dessa forma de pensar tem sido absurdamente transformador para muitos de nós. E sendo algo que nos modifica não apenas individualmente, mas enquanto agentes no coletivo, também é algo transformador para a sociedade em que vivemos. Olhando pra esses quase 2 anos de comunidade (em outubro), percebo que a THacker manifesta alguns princípios na sua prática. Não temos carta de ética, nem regras de uso. O que quero dizer é que, de acordo com o que essas mais de 500 pessoas (viramos 505 na lista esse fim de semana!) praticam, dá pra perceber quais são os princípios que nos agregam na mesma rede. Para citar alguns deles: colaboração, liberdade, autonomia, ética hacker, abertura pra formas novas de agir e de pensar sobre o mundo, valores políticos emergentes e mutáveis (ou mutantes) e um certo gostinho pela provocação. Todas essas são coisas altamente poderosas na política. Considerando também, é claro, que na comunidade tem gente que detesta política e só quer mesmo é inventar e codar projetos (o que, se bobear, é a postura mais politizada de todas :P). Falando sobre referências e sobre nossas interações com movimentos contemporâneos, acho que vale reparar que nos inspiramos muito na forma independente e ao mesmo tempo coesa como funcionam as comunidades de software livre, mas não nos identificamos quase em nada com o jeito engessado e restritivo dos movimentos sociais tradicionais. Muitos de nós militam em diversos outros grupos ligados à liberdade a à abertura – cultura livre, recursos educacionais abertos, software livre, por exemplo, o que faz absoluto sentido, é uma ligação orgânica e natural. Mas sempre vale terminar com uma provocação. Esse comentário é bem pessoal. Como nossa questão principal tem a ver com mudar a forma de fazer política, pra gerar uma abertura que se sustente na vocação e no formato, acontece que, às vezes, mesmo grupos cujo conteúdo é muito amigo das nossas práticas acabam virando espaços onde aplicar as ideias que eu aprendi na Transparência Hacker é algo bem difícil. Houve um episódio sobre um disclaimer pedindo o não-encaminhamento de mensagens e documentos de uma lista que militava sobre a reforma da Lei de Direito Autoral, por exemplo. Há também algumas reações indignadas quando fazemos cobranças pesadas, públicas e às claras de ações mais efetivas por parte de governos com quem estamos dialogando… Casos assim sempre me fazem sentir uma “diferença” da Transparência Hacker em relação a muitos movimentos próximos. Será que estratégia tem que ser antônimo de jogo claro, abertura e transparência? Mais do que atingir objetivos políticos, estamos brigando pra revolucionar o processo político, e acho que ainda temos muito o que fazer pra conseguir aplicar essa lógica em diversos dos espaços em que atuamos. Qual a experiência de articulação política em rede mais intensa que você já vivenciou? Aqui eu gostaria de ter um relato pessoal mesmo. Algo que você tenha se envolvido e que tenha sido marcante. Vou ser exagerada e citar duas. A primeira foi o Clone do Blog do Planalto. Quando o Pedro Markun (meu parceiro na Esfera e na Transparência Hacker e também curador do Festival CulturaDigital.Br) me apareceu com o laptop na mão, mostrando um “clone” do Blog do Planalto, quase como uma grande piada interna, eu não fazia ideia de no que a gente estava se metendo. Naqueles dias, estávamos desenhando uma empresa, porque eu queria trabalhar com internet e política – “entendendo política como espaço de empoderamento do cidadão”, nós anotamos no flip chart. Já tínhamos começado a bolar o primeiro Transparência HackDay, uns quinze dias antes. Mas foi só depois que o Thiago Carrapatoso (colega da Casa de Cultura Digital e cúmplice do clone) deu a dica de que aquela era uma ação da Esfera – e ainda depois de uma desastrada entrevista pra Folha, quando o Pedro jogou o telefone na minha mão, com a repórter na linha, me fazendo explicar tudo de sopetão – , que começaram a cair as fichas do quanto aquela ação rápida e sem pensar estava absurdamente ligada com as conversas lunáticas sobre política, empoderamento e participação que eu, o Pedro e outros amigos e amigas tínhamos tido naqueles tempos (desde que começamos a trabalhar juntos na CCD, ou desde que eu comecei a pesquisar transparência e participação política pro mestrado, ou desde que eu tinha desistido de pesquisar eleições porque era muito chato, ou desde que o Pedro se revoltou com o Kassab ter sido eleito prefeito sem que a gente fizesse nada, ou desde que eu larguei empregos seguidos em redações, ou desde sempre). Como dizem por aí, estava quicando. Respondendo a esta entrevista, acabei de me lembrar de que, naquela noite, depois da tal conversa com a Folha, eu mandei um e-mail pro Pedro que falava exatamente disso: “Foi meio bizarro a repórter da Folha forçar pra que eu assumisse alguma “oposição” ao governo, e depois da nossa conversa no bar, acho que entendi melhor o porquê da conversa dela me soar tão bizarra. O governo deu TODAS as ferramentas pra que uma coisa dessas sugisse –licença branda, (é quase um formato de publicação de dados públicos, mas pra conteúdo, pensando de um jeito tosco). Errou, estrategicamente, ao não respeitar o uso consagrado do formato post +comments para o blog. Mas enquanto todo mundo (até grande mídia está fazendo coro em cima da falta de comentários, a gente tem que marcar que essa é uma ação possível no uso inteligente do Creative Commons, na dinâmica da rede, que serve pra provocar nas pessoas uma vontade de pensar em comunicação e política de outro jeito. É meio doido o quanto essas pequenas ações hackeadoras estão latentes nas nossas pobres cabecinhas, aparecem meio do nada e depois tem TUDO a ver com TUDO o que a gente estava pensando. Esse com certeza é um super exemplo de hack pra mostrar como vai funcionar o Transparência HackDay, por exemplo.” O que veio depois daí foi uma enxurrada de repercussão na mídia e uma resposta formal da Presidência, dizendo que a “a internet é terreno livre” ou algo parecido. Tinha gente da esquerda odiando a gente de um lado, e gente da direita odiando mais do outro. Conservadores tarimbados acharam uma graça absurda daquele ato desmedido de liberdade. Libertários ferrenhos pediam nossa cabeça no Trezentos. Uma grande quantidade de pessoas admiráveis achou o máximo (ufa). O Daniel Pádua [ativista da Cultura Digital, que era da equipe do blog oficial do Planalto em 2009], de quem eu era fã, abriu diálogo com a gente – e nos contou que o clone tinha desestabilizado a decisão sobre os comentários fechados, um tema árido que ficou sendo discutido por meses na Presidência antes do blog ir pro ar. Enfim – ali nós percebemos que dava pra fazer a maior bagunça com essa coisa de internet e política. Isso ajudou a acelerar a realização do Transparência Hackday e fazer com que a gente finalmente começasse logo de uma vez a Esfera, apesar das impossibilidades. Eu não ouvi essa fala, mas me contaram que no Consegi (evento de software livre do Governo Federal), um palestrante mencionou a Transparência Hacker em um painel, e disse que isso tudo é culpa do Lula, do Pádua, da equipe que colocou Creative Commons no Blog do Planalto, das pessoas que fizeram cultura digital no MinC e software livre no Governo Federal por oito anos e permitiram que, na nossa ponta, a gente cortasse a bola que quicou… Acho que ele tem absoluta razão :) Quero citar a segunda experiência por conta do valor objetivo que ela tem: adicionar, junto com vários colaboradores da Transparência Hacker, os princípios dos dados governamentais abertos no projeto de lei que será – esperamos, em breve – a Lei Geral de Acesso à Informação Pública brasileira. Quero citar a segunda experiência por conta do valor objetivo que ela tem: adicionar, junto com vários colaboradores da Transparência Hacker, os princípios dos dados governamentais abertos no projeto de lei da Lei Geral de Acesso à Informação Pública brasileira [que foi sancionado pela presidente Dilma na última sexta-feira, 18 de novembro] Quando o Dep. Paulo Teixeira pediu que a comunidade adicionasse sugestões a lei, nós enviamos para ele uma lista, e ele respondeu que daquele jeito não adiantava – ele precisava saber exatamente onde e como aqueles pontos deveriam aparecer. Fizemos do único jeito possível – consolidamos as sugestões da comunidade diretamente no projeto de lei e enviamos para a lista aprovar o resultado, encaminhando depois pro Paulo. Quando abrimos o texto do projeto em um pirate pad e literalmente escrevemos pedaços da lei, eu tinha a sensação de estar fazendo a coisa mais dessacralizante (hacker?) do mundo. Não sou advogada, nem jurista, nem assessora legislativa, e de repente estava lá, escrevendo uma das peças legislativas mais importantes de qualquer país democrático que valha esse status. Pessoalmente, foi uma experiência bem importante. Agora, podemos dizer que temos uma das Lei de Acesso à Informação mais avançada do mundo em termos de tecnologia. Ela falará sobre garantir o acesso a informações e dados públicos em formatos abertos, detalhados, atualizados, legíveis por máquina e acessíveis por computadores externos. O desafio agora é usá-la muito bem. Abrindo a pergunta anterior: das coisas que leu, que acompanhou, onde é que você observa hoje os movimentos políticos mais interessantes? Como você posicionaria o Brasil em relação a esses movimentos, se é que não ocorrem em território brasileiro? Dani Silva – Os mais interessantes, no meu ponto de vista, definitivamente acontecem em território brasileiro :) Mas não se tratam de movimentos consolidados – que tendem um bocado à concentração. Os movimentos mais interessantes são emergentes, e resolvem problemas sociais com criatividade e autonomia. Por exemplo: se dependêssemos de uma política governamental ou de um projeto social para conectar o Brasil inteiro na internet, estaríamos fritos. Os interesses contrários à ideia de permitir que todos os brasileiros acessassem a internet, antes disso acontecer espontaneamente, seriam tantos, as impossibilidades que apareceriam seriam tamanhas, que a ideia jamais teria saído do papel. Ninguém sozinho teria sido criativo suficiente para criar as lan houses. Nenhum governo, movimento social ou ONG teria feito um projeto de empreendedorismo baseado em pouquíssimos recursos próprios, sevirismo, experiência e marketologia local. A emergência dessa ideia garante que a gente continue vislumbrando os potenciais de transformação da rede – e ainda por cima é implementada de forma autônoma, por pessoas que estão na periferia da política e da sociedade, colocando seus pares pra dentro dos processos de comunicação. É um processo revolucionário não apenas no conteúdo, mas no formato e na vocação. Em resposta a essa efervescência social, por oito anos, nós tivemos as melhores políticas governamentais de acesso à rede, à tecnologia e à cultura digital do mundo. Não é à toa que todo mundo está de olho no Brasil. Agora, precisamos cuidar pra não perder o bonde – e todos nós estamos falhando em dar pros retrocessos políticos recentes uma resposta fluida e criativa. Ou seja – temos muito trabalho nos esperando. Você tem batalhado por transparência. Aqui eu divido a pergunta em duas: Como você definiria a transparência? Só transparência basta? Dani Silva- A transparência na política é como a transparência da física – tem a ver com “permitir ver através” de uma determinada estrutura. E não, só transparência não resolve – o que resolve é abertura. Brigamos por transparência hoje porque hoje o governo está fechado numa caixa de concreto – e assim não dá pra saber como ele funciona, nem dá pra colaborar com ele. Perdemos a capacidade de colaborar justamente com esse gigante detentor de caminhos pro interesse público. Ver o que acontece lá dentro já seria um avanço. Mas, numa metáfora de fundo de quintal, não adianta de nada tirar os governos da caixa e colocar uma redoma de vidro em volta. A gente precisa que a redoma tenha uma porta. E se ela não tiver porta aberta, nós temos que quebrar uma janela. Ainda, na última instância, a gente tem que vislumbrar um mundo em que essa redoma não precisa e não deve existir. Um contexto político em que o trânsito entre governo e sociedade, para resolver problemas coletivos, seja mais fácil e mais orgânico – baseado numa membrana de informação relevante, aberta e acessível por qualquer das duas pontas. A política ainda é o caminho para transformar a sociedade? O que realmente muda a vida das pessoas? Dani Silva- Sim, a política é o caminho para transformar a sociedade. Mas para isso não adianta entender política como uma atividade marcada pela representação, pela terceirização, pelo poder de poucos em relação a muitos – tudo isso que está totalmente em cheque por causa da rede. A política representativa é um produto da era industrial, que pelo menos no que diz respeito a elementos imateriais (informação pública e decisões políticas, inclusive), está se transformando profundamente. Para ser transformadora, o conceito e a prática da política tem que extrapolar esse modelo. É preciso resgatar o entendimento de que a política é uma atividade de tomada de poder, necessária em todo processo de realização que não apenas tem a ver com vontades individuais, mas com interesses coletivos. Eu sempre penso na pessoa que está mais preocupada com a novela das 8 do que com o horário eleitoral. Sinceramente, dá pra inverter sem pestanejar o valor simbólico dessas duas coisas – o horário eleitoral parece mais uma novela, com um desfile de personagens que podem ser substituídos uns pelos outros, já que o final é sempre parecido; enquanto a novela é o que faz com que algumas pessoas se sintam parte de algo maior, presentes num espaço diferente da sua casa, um lugar onde as coisas quase mudam. O problema desse jogo é que nem a novela e nem o horário eleitoral mudam a

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vida de ninguém efetivamente. Precisamos acordar pra uma outra fórmula. As pessoas mudam a vida delas quando negociam espaço nas suas relações, quando garantem condições melhores de vida pra elas e pra suas famílias, quando resolvem problemas do seu bairro e da sua comunidade – mas como isso não passa na TV, então ele nunca foi considerado legítimo, nunca é chamado de política – e aqui o nome é muito importante. Na rede, o discurso também pertence às pessoas. Quando elas fazem a sua própria reprodução novela, seu próprio perfil no orkut, seu próprio videoclipe tosco, seu próprio protesto ou mobilização, elas estão, em graus diferentes, revertendo a ordem da novela e do horário eleitoral – e estão agindo politicamente, porque estão galgando espaço, ganhando poder. Daí pra começar a mudar a forma como se vive em casa e na sociedade, é um caminho bem mais curto. Hoje é possível legitimar suas ações autônomas e transformadoras como um jeito novo de fazer política – e é só por isso que ainda vale a pena.

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