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por Gilberto Gil
Anos atrás, no início de minha jornada como Ministro da Cultura, disse que queria fazer do Ministério o espaço da experimentação de rumos novos, o território da criatividade popular e das linguagens inovadoras, o palco de disponibilidade para a aventura e a ousadia. Nesta composição, que chamei de curto-circuito antropológico, o fundamental era convergir novas e velhas tradições, signos locais e globais, linguagens de todos os cantos. Acredito que essa concepção de cultura para o século 21 tenha sido um de nossos principais acertos. Ela se fez vetor de transformação, para além do discurso, por meio de políticas culturais inovadoras, baseadas na dialética permanente entre matrizes muitas vezes milenares e as tecnologias de ponta.
Sigo acreditando nessas ideias. E mais ainda, sigo a acreditar que a cultura digital concretiza essa filosofia, abrindo espaço para redefinir a forma e o conteúdo das políticas culturais, baseadas em liberdade, criatividade, ousadia e contemporaneidade. Não há razão para voltar atrás. Cada vez mais, nos percebemos como cidadãos e consumidores, emissores e receptores de saber e informação, seres ao mesmo tempo autônomos e conectados em redes: essa é a nova forma de coletividade. É por meio dessa ampla mobilização de pessoas, de inteligências, de criatividades que seguiremos construindo políticas estratégicas – seja dentro ou fora de governos – para a era digital.
Vejo, quase dez anos depois do início do Governo Lula, as iniciativas da sociedade, do terceiro setor, dos indivíduos não governamentais que são vetores matriciais do movimento, em um novo patamar, mais amadurecido, mais consistente. Eu, de volta à minha vida de artista, jamais abdiquei de tomar parte dessa revolução cotidiana que estamos vivendo. Temos outra longa jornada pela frente. Os enfrentamentos que estão postos não são pontuais. Não se trata da luta contra este ou aquele, mas de uma grande disputa pelos rumos do nosso planeta.
Muitas das questões para as quais chamamos atenção à época do Ministério seguem na ordem do dia, como, por exemplo, os impactos da cultura digital sobre os direitos autorais, com as propostas de novas formas de licenciamento e gestão de conteúdos, que abrem perspectivas inteiramente novas, diferentes, oxigenadas, para temas antes prisioneiros das várias formas de ortodoxia analógica. Precisamos enfrentar essa revolução sem medo. Será, sem dúvida, um dos temas sobre o qual mais iremos falar na 3ª edição do Festival CulturaDigital.Br.
Estamos no Rio. Recebo-os, parceiros de sonhos e aventuras, na cidade que escolhi viver. Cidade que agora se apresenta como capital internacional do Brasil do presente, onde, nos próximos anos, enfrentaremos o desafio de ser o centro global das atenções. Como disse Oswald de Andrade, somos protagonistas essenciais dos sonhos utópicos de um Novo Mundo. Tenho certeza, nossa beleza fará a diferença. Mas será nossa capacidade de inovar que será posta a prova. Daí a importância deste evento, que pode se constituir como palco central desse exercício coletivo de formulação de alternativas viáveis, adequadas à nossa necessidade de um desenvolvimento socialmente justo e ambientalmente sustentável.
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